Planejar com a Comunidade, uma questão de Cidadania
Ainda hoje, com o sucesso do plano Real, temos no desemprego o fantasma que se corporifica aqui e ali, atingindo uma massa de trabalhadores silenciosa, sem poder de reverter o processo, mesmo porque são poucas as expectativas de mudanças do quadro que se pronuncia globalizado. Por bem ou por mal, a verdade é que a estabilidade da moeda foi obtida e presentemente estamos em condições de buscar o crescimento e o desenvolvimento econômico instrumentalizados no planejamento, coisa impossível de se pensar alguns anos atrás. Mas ainda assim, apesar de se ter as condições ideais, resiste-se a tarefa de planejar. Esta resistência não é nova, o ser humano é assim mesmo, somos imediatistas. Na área privada, os empresários resistem ao planejamento porque só antevêem gastos com a iniciativa, ou porque o proprietário não quer que alguns de seus dados de gerenciamento sejam levantados e mostrados transparentes. Outra barreira é a falta de recursos financeiros que é alegada num primeiro momento, como impeditiva do planejamento. Diz-se " - Vou planejar para quê? Primeiro tenho que ter o dinheiro, para depois planejar!" Pois é justamente ao contrário, quanto menos recursos financeiros, materiais e humanos tenhamos à disposição, mais necessário se torna saber como aplicá-los e direcioná-los. Planejar pode ter o sentido de unir pequenas forças que somadas resultarão em crescimento e desenvolvimento para a sociedade como um todo. Evitando o desperdício. Por outro lado, se existe dinheiro, sabemos que a enxurrada de capital oportunista que entra num país ou numa região, não faz muito mais coisa que explorar de forma selvagem as matérias-primas locais, usando, a mão-de-obra sem compromisso social e conduzindo a ação antrópica à degradação ambiental. Veja-se, por exemplo, o chamado milagre da década de 70 e o caso recente do México. Conclui-se que tendo ou não dinheiro, o planejamento é arma indispensável para se crescer e alcançar-se o desenvolvimento ambientalmente sustentável, economicamente viável e socialmente justo. Pois bem, supondo-se vencida a resistência à idéia de planejar, pensando que todos acreditamos na necessidade de se planejar, ainda sim, propomos uma segunda questão, tão ou mais importante que a anterior. Devemos discutir, agora qual o tipo de planejamento mais adequado para a nossa economia e para a nossa sociedade, levando em consideração, principalmente, a situação de participação da população nas decisões que lhe afetam diretamente. Em primeiro lugar, temos que ter em mente que a nossa sociedade está condicionada a duas vertentes, uma de subserviência e a outra de mando, poder. Dividimos-nos entre os que sabem e os que não sabem. Além da concentração de rendas, ou mesmo por ela, a invisível concentração do saber que cria o pernicioso poder dos que sabem contra a submissão dos que não sabem. Assim nos dividimos, não somos afeitos à participação, à parceira. Falta-nos cidadania. Esta formação cultural que não nos cabe discutir neste espaço, manteve o planejamento no Brasil, quando existiu, sempre elaborado de cima para baixo. Os técnicos designados para a tarefa, com seus títulos acadêmicos, sentavam-se à sombra do poder político e planejavam. Atualmente, no brasil é necessário, além de instituir o planejador como forma de racionalizar os recursos, quebrar esta cadeia cultural do planejamento versus executor, eliminado de vez o planejamento de gabinete, de cima para baixo, e dar uma chance à participação social e à construção da cidadania. Diferente de outros planejamentos, o participativo é um processo que se propõe a elaborar planos partindo das aspirações da comunidade, pressupondo ela organizada politicamente em municípios, bairros e regiões, e socialmente, em sindicatos, cooperativas, organizações não governamentais e associações diversas, num trabalho conjunto que reúne a representação comunitária, em forma de pirâmide, desde encontros locais até seminários regionais desenvolvimentos para a conscientização, passando pela coleta de dados, até o diagnóstico e as propostas finais de soluções, incluindo o acompanhamento e a fiscalização. Assim elaborados, os planos, fruto do planejamento participativo, chegarão ao final mostrando a comunidade como ela é, propiciando a que se descubra, quase sempre, abandonada a sua própria sorte. Os problemas serão levantados, as soluções indicadas, o desenvolvimento cenarizado, mas faltarão os recursos financeiros, materiais e humanos para a implantação do desejo da sociedade. Impotentes num primeiro momento, logo verão que, sem dinheiro, só lhes resta mesmo fazer as coisas com as próprias mãos, buscando soluções originais e explorando suas potencialidades e é exatamente por isso que se planeja. A comunidade instrumentalizada se agiganta e, com o plano documentado, aprovado, divulgado e quase que reconhecido em cartório, vai a luta, cria Comitês de Desenvolvimento, passa a exigir dos governantes ações em cima das metas estipuladas. Os próprios técnicos e gerentes que atuam nos programas públicos ou mesmo na indústria e nos serviços da região, conscientizados, já se direcionarão para a execução do que prevê o plano e a cidadania acontece. Não se trata de milagres. O planejamento participativo é um processo cujos resultados serão alçados a médio e longo prazos. Só é preciso começá-lo e com a participação da sociedade.
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